sexta-feira, 4 de novembro de 2016

« eu queria que a vida fosse dividida em quatro estágios, mas que não acabasse nunca. 

a infância é como a primavera. é pura novidade e um calor que não sufoca nem faz pensar bobagens. tem uma inocência quase cafona, uma singeleza clássica, e traz no íntimo a certeza de que pela frente vem coisa boa. a gente quer que passe logo, mas sabe que nunca mais será tão protegido, a mordomia não será eterna. é quando as coisas acontecem pela primeira vez, é quando num arbusto verde vemos surgir alguns vermelhos, é surpresa, a primeira de uma série. 

a adolescência é como o verão. quente, petulante, libidinosa. parece que não vai haver tempo para fazer tudo o que se quer e o que se teme. é musical e fotogénica. dúvidas, dúvidas, dúvidas em frente ao mar. mergulha-se no profundo e no raso. pouca roupa, pouca bagagem. curiosidade. vontade que dure para sempre, certeza de que passa. noção do corpo. festas e religião. amor e fé. 

a maturidade é como o outono. um longo e instável outono, que alterna dias quentes e frios, que nos emociona e nos gripa. há mais beleza e o ar é mais seco, porém é quando se colhem os melhores abraços. ficar sozinho passa a não ser tão aterrorizante. fugimos para a praia, fugimos para a serra, as ideias aprendem a se movimentar, a fazer a mala rápido, a trocar de rota se o desejo se impuser, e não é preciso consultar o pai e a mãe antes de errar. é o outono que tentamos conservar. 

o inverno é como a velhice. tem sua beleza igualmente, exige lã, bolsa de água quente, termómetro e uma janela bem vedada. o que não queremos que entre? maus presságios. o inverno é frio como despedida de um grande amor, mas sabemos que tudo voltará a ser ameno. queremos que passe, temos medo que termine. ficar sozinho volta a ser aterrorizante. o inverno é branco, é cinza, é prata. é grisalho. e, de repente, também passa. 

eu queria que tudo fosse verdade, que a vida fosse assim dividida em quatro estágios que mais parecem estações do ano, mas que não acabasse, que depois do inverno viesse outra primavera, e outro verão, e outro outono, que nunca são iguais, mas sempre se repetem, sempre voltam, são tão certos quanto o sol e a lua, todo dia, toda noite. eu queria. »