há muito tempo que deixei de saber escrever. perdeu-se a vontade, o entusiasmo. as palavras fugiram-me. com elas fugiu a vontade que querer entender o mundo à minha volta. foi-se o brilho que me preenchia. outrora escrevi as melhores cartas de amor, fui elogiada; a minha escrita foi cobiçada. deixei fugir por entre dedos a minha inspiração. se soubesse eu antes que o amor era a minha inspiração, talvez o tivesse agarrado por mais tempo, talvez lhe tivesse sugado tudo para poder guardar num cofre e esconde-lo bem longe, onde só eu o pudesse encontrar. mas não pude, não me lembrei desse pequeno pormenor e mandei-o embora, sem pena. resta-me agora uma vaga saudade do que já fui capaz de escrever, do que já fui capaz de imaginar e de sonhar. sonhei muito, reli livros, textos, ouvi músicas em busca de uma divina inspiração e nada. fiquei sem nada. sem amor, sem letras que me completassem o vazio, nada. resumo-me agora a um nada que já não sabe brincar com as palavras. resigno-me à minha misera insignificância. deixo-me agora entregue às palavras vagas que não passam disso: só palavras.