nunca escrevi sobre ti, nem aqui nem em lado nenhum. mas acho que mereces desta vez ser mencionado, porque hoje passados tantos anos, lembrei-me de ti. eu nunca gostei de me jogar de cabeça, e até te conhecer estava muito bem sossegada no meu canto, a gostar de brincar com as minhas amigas, ir ao cinema com elas, rir com elas, e falar de rapazes com elas. eu, uma miúda de 13 anos não queria saber de mais nada, certo? era típico da idade. e jamais pensei que um simples e estranho rapaz como tu me conseguisse vir a dominar. eu não te conhecia nem fazia intenções de tal, mas como te apanhei a olhar para mim de uma maneira mesmo estranha arrisquei e convidei-te para irmos ao cinema, estranho não? que atitude mais estapafúrdia. (...) depois do primeiro beijo, nem sei o que senti. era aquilo o primeiro beijo que todas sonharam? eu digo-te, nunca gostei do meu primeiro beijo contigo, desculpa-me lá por isso. (...) o tempo passava e tu tentavas criar-me ao teu jeito e moldar-me. mas eu, com 14 anos já feitos ainda tinha muito para viver, queria sorrir e brincar, não queria responsabilidades. queria carinho e atenção sim, mas não queria já um casamento marcado. e, quando viste que eu não estava preparada para uma relação de grande calibre, deixaste-me. queres saber? nunca me importei muito com isso. volto a repetir, tinha apenas 14 anos e tinha tanto pela frente, só me magoou o facto de não quereres continuar a falar-me ou a ser o meu amigo. no fundo foi a pior coisa que me poderias ter feito. a tua amizade era importante para mim, e tu só tinhas que aceitar que eu, não estando preparada para mudar por alguém que me queria à sua imagem não verídica, e não aceitar quem eu era; não era o que sempre sonhei. (...) hoje, relembro-me das idas ao cinema, das mãos dadas, dos risos, e o que restou? nada. a melhor memória que tenho de ti era os momentos de amizade, não dos outros. a pior é teres matado a nossa amizade e não teres tentado sequer aceitar-me e ficar comigo, nem como amigo. foste uma peça fundamental na minha vida, e sabes porquê? porque aprendi que não se deve mudar por ninguém, e acima de tudo devemos também lutar pelas coisas. eu não lutei pela tua amizade de facto, e poderia tê-lo feito, mas ao ver que desististe primeiro, por que carga de água iria eu me rebaixar? aprendi também que de nada vale, sermos tontas e iludirmo-nos com as primeiras impressões que tiramos das pessoas; não iremos sair a ganhar. (...) eu não te amei, mas gostei de ti. só por isso mereceste que tivesse escrito isto por ti. aproveita, foi a primeira e última vez.